Não faz absolutamente nenhum sentido
Não faz sentido.
Chegamos nesse mundo sem nenhuma condição de entender o que isso significa!
Aos poucos somos um corpo, uma sensação, uma imagem, sons, aos poucos somos silêncios e palavras, aos poucos somos pedaços, partes, um nome, um sexo, aos poucos somos lugares. Recém chegados expulsos do paraíso, culpados por nascermos frágeis, incapazes, dependentes. Alguém está tomando as decisões por nós. Mais adiante os culparemos por isso.
Acho que deve ser muito marcante para um bebê a experiência de ser olhado, de ir aprendendo a interagir com outros seres humanos, com olhares, expressões faciais, pequenos movimentos, com sons que começam a se insinuar... sentir-se vivo, um corpo, uma voz!
Ter a capacidade de entender que está vivo foi revolucionário para a espécie.
Acho que é o nosso grande momento como humanos: entender algo.
É só aos poucos que vamos abrindo os olhos, aos poucos vamos sustentando abri-los por mais tempo, vamos enxergando melhor, é aos poucos que vamos nos familiarizando com a experiência de ver as coisas.
É como chegar sem estar pronto e sem nenhuma condição de ser sem que alguém nos sustente, nos permita ser. Sem que alguém nos nomeie. Já somos alguém, antes mesmo de poder entender que somos qualquer coisa.
Sem um outro que nos explique o mundo não resistiríamos. Não existiríamos.
Para existir precisamos de um lugar, precisamos de afetos, olhares, palavras, histórias.
Não entendemos quem somos, o que sentimos, os sons que ouvimos, não conhecemos onde estamos nos metendo, em que lugar, clima, circunstância. Nada.
Vamos aprendendo o nome das coisas, vamos nomeando também, vamos seguindo antes mesmo de saber que estamos em movimento. E não só aprendemos a nomear, mas vamos descobrindo como o mundo funciona. Aos poucos sentimos que entendemos algumas coisas, passamos a carregar certezas.
A verdade que julgamos descobrir, sempre escapa. E é infinitamente melhor isso, do que possuir a verdade. Quem possui a verdade já morreu, só não sabe.
O ser humano dizem é a espécie que mais demora pra se tornar independente. Risos.
As páginas da vida que insistimos em esconder como evangelhos apócrifos curiosamente estão sempre à mostra. A contradição, o tropeço, a ignorância, o feio, o sujo, errático, erótico, satânico, o violento... a loucura, a dúvida, o não saber, o mistério... Algumas palavras, lugares e situações aprendemos rápido a esconder, a evitar e a temer. Fingimos não ver.
No entanto, a vida não está nem aí para o que quer que a gente invente, amiúde como bem nos alertou Cartola ela tritura os sonhos e reduz as ilusões a pó. Ou você já sentiu isso, ou vai sentir.
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Fomos traídos, ou enganados?!
A pergunta é problemática, mas vamos considerá-la.
Quanto mais privilégio, mais a gente demora pra perceber que não, não está tudo bem. Algo na vida vai bem mal e ninguém nos disse.
A vida é difícil. Nascer é difícil, abrir os olhos, falar, andar, correr, pensar...dói! Por isso tanta gente desiste, e muitas outras pessoas não conseguem porque estão com fome. O corpo dói, a cabeça, as costas, o bolso...
De novo aquela sensação, talvez familiar, de não chegar pronto, de não conseguir abrir os olhos direito, ou identificar e saber o que estamos olhando. De novo aquela sede de que alguém nos diga, nos olhe, nos ame, nos cuide ampare e prepare o mundo pra nós. Nos conte o que é o mundo, como ele funciona.
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Crescer é como perceber que estamos nus. Um bebê não sabe que está nu, ele não sabe, não tem como ele saber. Nós já sabemos agora, somos um corpo e estamos nus. Nos cobrimos de roupas, ornamentos, ideias, conceitos, certezas. E ainda assim, não entendemos bem no que estamos metidos.
Nos expulsaram de um paraíso que nunca chegamos a desfrutar, por uma razão simples: ele não existe. O que existe é um mundo muito complicado e chato de entender, existe um mundo difícil, complexo, dolorido, contraditório, existe um desejo que insiste, persiste e resiste. É exaustivo, cansativo.
Às vezes, eu me pego pensando que não dá mesmo pra entender bem a vida aos 15, hoje aos trintas tem dias que só quero sentar na calçada de uma rua deserta e chorar, em alguns momentos essa parece ser a minha única ferramenta para lidar com os dias em que me bate o sentimento que só consigo descrever da seguinte forma: "o ser humano deu muito errado".
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Tudo o que não faz sentido pode fazer qualquer sentido.
Vivemos não só de corpo, moléculas e substâncias químicas, vivemos de palavras, metáforas, histórias... As pessoas o tempo todo estão vendendo seus sentidos aos outros. O que por si só não é ruim. A armadilha é o entendimento, a verdade, a salvação, o nirvana, o paraíso.
Tão arcaica essa necessidade de proteção absoluta que estivemos dispostos a pagar um preço alto ao longo da história para garanti-la.
Entender nos trouxe até aqui, talvez por isso seja tão irresistível esse lugar e tão sedutor criar histórias nas quais somos os protagonistas e as mais belas criaturas já inventadas, belas não por seu próprio mérito, claro, mas pela amorosidade de seu obsequioso criador que pede em troca nada menos que a sua alma para coabitar com ele o paraíso, caso você assim o mereça se estiver disposto aos sacrifícios da vida terrena. Desafios especialmente criados para que sua alma seja digna da presença Dele já que estar na sua glória é o seu maior desejo, porque não há nada de mais grandioso do que desejá-lo. É tudo pelo qual você estava esperando por toda sua existência. Ser, literalmente, um com o Uno. (qualquer semelhança com a autoestima do macho hétero, não é coincidência)
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Viver não faz absolutamente nenhum sentido.
No entanto, faz muitos. Nascemos em histórias, nascemos de afetos, de outros, outras, nascemos em um país, em um lugar, com uma data, um corpo, nascemos de palavras, de espaços de se expressar, em um momento histórico, em um bairro, em um ano, nascemos atravessados, emaranhados em complexas relações das quais não fazemos absolutamente a menor ideia. De ditos e não ditos, de gritos e silêncios contidos, calados, maltratados. Nascemos de mentiras, desejos e sonhos, de ódios históricos, nascemos em cima de escombros. Com sangue nas mãos e nos olhos.
Com sorte, comemos bem e aprendemos a ler, com sorte tivemos alguns professores, alguns amigos, um dinheiro e conseguimos crescer em condições razoáveis ou mesmo boas e passamos a entender algumas coisas! Esse prazer tão humano, essa dor tão humana: entender.
O sorriso de quem gostamos, acho que isso deve ser a primeira boa sensação que sentimos quando estamos começando a engatinhar naquilo que vai ser a nossa capacidade de ler o mundo, interagir e responder. Ver um sorriso, sorrir de volta. Essa conexão, aquele momento estético que nos captura, as coisas boas da vida. Elas existem, você sabe, não vou numerá-las. Meu texto hoje é como aquele filme que você nem percebeu que acabou. Sabe aquela sensação de "ok, mas e daí o que acontece?"; "cadê aquela parte em que as coisas se resolvem e as pessoas ficam felizes?"; é sobre nosso amor impossível por entender as coisas. Gostamos de entender, de explicar. Precisamos disso pra viver, pra que seja possível nos comunicarmos, para criarmos etc. Para poder conversar eu encaixo uma palavra na outra. Nosso amor por encaixar palavras nos colocou em um labirinto de Escher, poder entender o mundo não nos livrou do mal entendido.
O que são palavras encaixadas diante da vastidão do que nunca pode ser dito?!
Talvez desde o começo, o verbo não fosse entender.
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